31/08/2022

PI: acusado de atropelar namorada e matar amiga confessa crime: ‘mesmo inconsciente, era eu que conduzia o veículo’

Pablo Henrique afirmou estar embriagado e que não lembra do momento do atropelamento. Crime aconteceu em setembro de 2019. Julgamento acontece sob protestos de familiares de Vanessa Carvalho, que morreu no atropelamento, e de outras vítimas de feminicídio.

Acusado de atropelar namorada e matar amiga em Teresina confessa crime durante julgamento — Foto: Reprodução

O empresário Pablo Henrique Campos, acusado de atropelar e matar a enfermeira Vanessa Carvalho e deixar ferida Anuxa Alencar, confessou o crime durante julgamento no Fórum Cível e Criminal Desembargador Joaquim de Souza Neto, em Teresina, nesta terça-feira (30). Ele afirmou estar embriagado e que não lembra do momento do atropelamento.

“Mesmo inconsciente, era eu que conduzia o veículo”, declarou Pablo Henrique durante o julgamento.

Pablo Henrique é acusado de homicídio duplamente qualificado, por feminicídio e por impossibilidade de defesa da vítima, contra Vanessa Carvalho; além de tentativa de feminicídio contra a namorada, Anuxa Kelly Alencar. A sessão está sendo realizada na 1ª Vara do Tribunal Popular do Júri de Teresina. Já foram ouvidas as testemunhas de defesa e acusação.

“Começamos a beber, nos divertir, bebendo, comendo, bebemos muito. Eu sei que depois de muitas horas de festa, fomos para uma mesa mais próxima da banda. Nesse momento, eu já tinha bebido muito. Eu até comentei com o Kelvin que, quando eu tomei a primeira dose, ela estava bem forte. Comecei a tomar a primeira, a segunda em diante eu já não falei mais nada. Daí, eu já estava bem embriagado. Continuei bebendo e perdi o sentido. Só foi voltar em mim quando eu estava na Central de Flagrantes, sem saber o que tinha acontecido”, disse o réu.

Julgamento de suspeito de atropelar e matar enfermeira e ferir namorada acontece no Tribunal do Júri nesta terça (30) em Teresina — Foto: Ilanna Serena/g1

Relacionamento
O empresário informou que tinha um relacionamento harmonioso com Anuxa. Ele disse que os dois discutiam quando ingeriam bebida alcoólica, e que nunca houve agressões físicas, somente verbais, como xingamentos e palavras de baixo calão.

“Nas discussões, para não gerar problemas maiores porque, geralmente, para evitar qualquer tipo de discussão ou agressão física, eu sempre evitava e saía do local porque, geralmente, a gente saía com outros casais. Quando ocorria discussões que eu via que ia aumentar o nível por conta da bebida alcoólica, da agitação, eu preferia sair”, declarou Pablo Henrique.

Ele também relatou que não possuía ciúmes de Anuxa. “Durante todo esse tempo que convivi com Anuxa, ela era uma mulher de muitas amizades e, muitas vezes, ela me ligava quando eu estava trabalhando ‘Amor, vou sair com duas amigas para conversar e beber’, eu só perguntava onde era e ela me dizia que eu podia ir para lá depois do meu trabalho. Ela tinha amizades também com homens, conheci vários amigos dela, às vezes, ela saía pra tomar cerveja com os amigos”, comentou o acusado.

Vítima presta depoimento
Vítima Anuxa Kelly — Foto: Glayson Costa/G1

A auxiliar administrativa Anuxa Kelly Leite Alencar foi a primeira a prestar depoimento. Na época do crime, ela e o réu namoravam há quase um ano e moravam juntos. No dia 28 de setembro de 2019, eles foram a um casamento acompanhados de Vanessa.

"Ele dançou, eu dancei com minhas amigas. Mas não sei o motivo dele ter ficado alterado. Do meio da festa pro final, ficamos separados. A única vez que ele se aproximou de mim foi batendo no meu ombro e dizendo 'você vai me pagar', foi quando minha amiga Laiara disse 'vamos embora'", lembrou.

Antes de ir embora, as amigas foram até o carro de Pablo para pegar objetos pessoais que estavam no veículo do acusado.

"Quando estávamos no carro, eu no volante, ele veio correndo de dentro do buffet, eu me assustei e saí. Eu vi pelo retrovisor ele correndo atrás", relembrou.

Apreensiva, Anuxa decidiu dormir na casa da amiga Vanessa e retornou para a festa para deixar a chave do carro do rapaz, que estava em sua bolsa.

"A Laiara ainda tava na porta. Eu só entreguei a chave pra ela e disse "entrega pra ele". Foi quando tudo que aconteceu. A gente virou as costas e caminhou em direção ao carro da Laiara. Logo depois, ele jogou o carro dele pra cima de mim e da Vanessa. A gente tava do lado uma da outra. Minha amiga viu tudo, ela disse que a gente voou", disse.

"Eu só acordei no hospital. Eu soube que antes gritaram pra gente subir a calçada, eu não ouvi. Quando acordei, perguntei pela Vanessa e até por ele, porque não sabia o que tinha acontecido, não sabia que ele tinha que tinha nos atropelado", completou.

Relação abusiva
Segundo a vítima, o ex-namorado constantemente demonstrava ciúmes, ficava agressivo e não se desculpava após brigas entre o casal.

"Nossa relação, na maiorias das vezes, não era boa. Era um relacionamento bem conturbado. No iniciozinho não, piorou depois que fomos morar juntos. Fisicamente nunca chegou a me agredir, acho que por morar comigo e com minha mãe. Quando a gente saía, do meio pro fim, ele ficava com raiva de alguma coisa, ia embora e me deixava sozinha. Isso acontecia com frequência", declarou.

"Eu dizia 'por que você me deixou?' e ele respondia 'pra não acontecer coisa pior'", declarou Anuxa.

Anuxa também relatou que Pablo e Vanessa chegaram a discutir por mensagens em uma rede social, quando a amiga a defendeu após uma discussão entre o casal. De acordo com Anuxa, Pablo uma vez reclamou da amizade entre elas.

"Ele dizia que eu dava muita atenção aos meus amigos. Eu não ia deixar de aproveitar o casamento da minha amiga porque ele 'tava com raiva, não ia ficar no pé dele perguntando o que tinha acontecido. Porque eu já 'tava acostumada. Eu não me recordo, mas chegaram pessoas pra dizer que no dia do casamento ele jogou bebida em mim", disse durante o depoimento.

Amiga lembra dia do crime
A amiga de Vanessa e Anuxa, Laiara Ferreira Campos, foi a terceira pessoa a prestar depoimento. Conforme a testemunha, Pablo ingeriu um alto índice de bebidas alcoólicas antes do crime e estava bastante alterado. Antes do crime, algumas pessoas chegaram a tentar acalmar o rapaz.

"Teve o momento da dança. A gente começou a dançar e, assim como todas as pessoas, a Anuxa dançou com o cantor. O Pablo saiu irritado, demorou a voltar. Quando voltou, se aproximou e disse que ela ia pagar. Então eu convidei as meninas pra ir pra casa, já estava tarde também. Fiquei aguardando elas buscarem as coisas no carro dele. Nesse momento, ele sai do buffet e a Anuxa arranca com o carro. Eu ainda tentei falar, mas ele só saiu correndo atrás", contou.

"Pensei que elas tivessem ido embora quando a Anuxa retorna, para o carro, me entrega a chave e diz 'vamos com vocês'. Meu esposo acompanhou as meninas até o meu carro e eu fui ao encontro do Pablo. A intenção era meu esposo levar as meninas e eu levaria o Pablo pra casa. Ele tava bem estressado, tinha bebido muito, chegou a cair duas vezes. Ele me pedia muito a chave do carro. Meu esposo viu ele alterado e gritou pra eu entregar logo, então joguei a chave. Virei pra ir ao encontro do meu esposo e das meninas. Foi quando tudo aconteceu. A gente ouviu o barulho do carro e quando a gente viu foi só o farol atrás da gente. Meu esposo meio que me jogou pra calçada. O farol pegou no braço do meu esposo. O Pablo reduziu, acelerou novamente e atingiu as duas", contou.

Com o susto, Laiara desmaiou e só despertou minutos após o atropelamento. Durante o julgamento, ela revelou que Anuxa e Pablo discutiam em "80% das vezes em que saíam".

"Tudo começava bem, mas do meio pro fim, algo acontecia e ele deixava ela. Ela sempre voltava pra casa comigo. Ele não gostava de ver ela com outras pessoas, dançando, tendo uma vida normal. Com base nesses ciúmes, ele ia embora. Algumas vezes ele avisava, outras vezes ele só sumia", destacou.

O autônomo Kevin Costa Caldas, marido de Laiara, também relatou o episódio.

"Estávamos nós dois na porta conversando, eu e Pablo. Voltamos para o casamento. Quando ele entrou, ele viu a Anuxa dançando com o cantor. Ele mudou completamente o semblante, ficou completamente diferente".

"Depois de correr atrás do carro, quando ele voltou e as meninas iam em direção ao carro da minha esposa, ele estava de um jeito que eu desconheci. Muito irritado, muito agressivo", disse.

"Ficou outra pessoa. Quando viu eles dançando, ficou 'não acredito, essa vaca", gritando, gritando muito mesmo. Virou outra pessoa", disse Kevin.

Delegado testemunhou atropelamento
A segunda testemunha foi o delegado e Coordenador da Central de Flagrantes, Dyego Pascoal, que esteve na festa de casamento em que Pablo, Vanessa e Anuxa estavam. Ele presenciou o momento em que o réu atropelou as duas vítimas.

"Eu saí da festa e fiquei na frente conversando com algumas pessoas, esperando minha esposa. Veio um amigo e falou 'rapaz, tem um casal discutindo e brigando ali, tem como você falar com ele?'. Nesse momento eu vi um carro se deslocando e o início de um conflito. Um casal, que estava na direção deles, se aproximou, perguntei 'como tá a confusão lá?' e disseram que estava tudo bem" contou.

"Depois minha esposa chegou e nos preparamos pra sair. Nesse momento, o rapaz já vem com o carro disparado, quando elas vão em direção a um carro, pra cruzar a Homero. Ele direciona o carro pras meninas e atinge elas em cheio, praticamente na minha frente. Ele desgovernou o carro, foi fazendo zigue zague até conseguir seguir. Eu busquei a chave do carro pra tentar seguir ele, mas não consegui. Depois minha esposa contou que jogou no canteiro pra que eu não fosse atrás", afirmou.

O delegado contou que depois do atropelamento acionou as guarnições policiais que estavam em serviço. Pablo foi preso ainda na madrugada de domingo (29).

"Os policiais contaram que ele teve uma certa resistência à prisão, mas nada fora do normal. Ele estava atordoado. Conversamos na Central de Flagrantes, disse para ele ficar tranquilo, que ele seria preso para responder pelos atos dele", completou.

Família protesta
No local, familiares de Vanessa se reuniram no início da manhã, com cartazes e balões brancos, para pedir por justiça.

Em entrevista à TV Clube, o pai da vítima, Edson Carvalho, relatou a dor e angústia da família após uma espera de quase três anos para o julgamento.

O crime aconteceu em setembro de 2019. De acordo com ele, a defesa do suspeito chegou a entrar com vários recursos na Justiça, mas todos foram negados.

Pablo foi autuado em flagrante por feminicídio consumado e por tentativa de feminicídio, horas após o crime. Ele está preso desde então.

"Monstruosidade. Eu pergunto como eu fico, como minha mulher fica, como minha família fica diante de tanta monstruosidade. Peço que a Justiça seja feita. Ele não só tirou a vida da minha filha, tirou a vida de uma família inteira. Espero que hoje a gente tenha pelo menos um pingo de alívio. Porque não é fácil um pai, uma mãe vir pra cá. A gente não era pra tá aqui, era pra tá na casa da gente, vivendo os planos que a gente fez", afirmou.

Para o promotor de Justiça João Mendes Benigno, provas documentais apontam o réu como autor do crime.

"Ele matou intencionalmente a Vanessa e quase mata, se não fosse interferência médica, a Anuxa. As provas são claríssimas, inclusive as filmagens do local onde houve a colisão. O carro pegou as duas vítimas de costas. Ele saiu do local dirigindo o mesmo veículo e foi pra casa. É tão cínico e covarde que chegou e foi dormir", comentou o prometor.

Relembre o caso
Pablo Henrique Campos, Vanessa Carvalho e Anuxa Alencar, segundo a Polícia Civil, teriam ido juntos a uma festa de casamento na noite do sábado, 28 de setembro de 2019, em um buffet localizado na Avenida Homero Castelo Branco, bairro Ininga, Zona Leste de Teresina.

Na madrugada de domingo (29), o casal teria tido uma briga. Os três deixaram o local da festa e Anuxa saiu no carro do namorado, mas retornou e entregou a chave a ele.

Ela e Vanessa tentavam ir embora no carro de outra amiga quando foram atropeladas. Anuxa foi encaminhada ao Hospital de Urgência de Teresina (HUT) com uma fratura no fêmur. Vanessa morreu a caminho do hospital.

Fonte: Portal G1 PI

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