20/03/2014
O Tribunal de Contas da União (TCU) realizou auditoria com o objetivo
de avaliar a oferta e a qualidade do ensino médio no Brasil. O
diagnóstico é resultado de trabalho realizado em sistema de colaboração
entre o TCU e outros 28 tribunais de contas. Estiveram envolvidos na
auditoria 90 auditores e foram visitadas 580 escolas em todo o
território nacional.
O Tribunal de Contas da União constatou que no Piauí existem
2.300 professores recebendo salários, mas fora da sala de aula. 378
professores estão fora da sala de aula, sendo que 320 estão afastados
porque estão cedidos a outros órgãos; 1.879 estão afastados da sala de
aula porque exercem atividades administrativas; e 89 por outros motivos.
No Piauí há um déficit de 378 professores com formação e tem 1.505 professores sem formação específica.
O TCU divulgou que o Piauí tem um déficit de 378 professores nas
disciplinas obrigatórias do ensino médio, sendo que Física é a
disciplina com maior déficit de professores, 162 no total; seguido de
Sociologia com déficit de 80 professores; da Química, que de 69
professores de déficit; e Artes, que tem um déficit de 67 professores.
No Brasil, de acordo com os cálculos realizados, há um déficit
estimado de pelo menos 32.700 professores com formação específica nas
disciplinas obrigatórias do ensino médio nas redes estaduais de
educação.
Física é a disciplina com maior déficit - mais de nove mil
professores - e é o único caso com déficit em todos os estados. Em
seguida vêm as disciplinas de química e sociologia, ambas com carência
de
mais de quatro mil profissionais, sendo que a carência em sociologia aparece em 25 estados, e em química, em 20.
A auditoria ocorreu por iniciativa do presidente do TCU, ministro
Augusto Nardes, que, para concretizar a realização de trabalho tão
abrangente, buscou a cooperação dos tribunais de contas estaduais e
municipais do País. Segundo Nardes, “a educação foi ampliada e
intensificada no Brasil, no entanto, a qualidade é o aspecto que deixa a
desejar, tornando-se um grande gargalo do País”.
Ao TCU coube abordar as ações do Ministério da Educação (MEC), e
aos outros tribunais de contas participantes, questões relativas à
atuação das secretarias de educação de seus respectivos estados e
municípios.
Segundo a Lei de Diretrizes e Bases da Educação, a oferta do
ensino médio, que é a última etapa da educação básica, deve ser feita
prioritariamente pelos governos estaduais. A União, contudo, por meio de
ações supletivas e redistributivas, deve contribuir para a equalização
de oportunidades educacionais e para a consolidação de um padrão mínimo
de qualidade do ensino mediante assistência técnica e financeira.
A auditoria do TCU avaliou aspectos relativos a quatro eixos
temáticos: cobertura, professores, gestão e financiamento. Foram
abordados aspectos relativos à oferta de vagas, à disponibilidade e
formação de professores, à gestão das redes de ensino e das escolas e à
qualidade e fidedignidade das informações sobre o financiamento do
ensino médio no Brasil.
O tribunal constatou que a cooperação efetiva entre os entes
federados, com a definição das competências e responsabilidades de cada
ente na oferta de um ensino de qualidade, é condição necessária para a
solução da grande maioria dos problemas identificados.
As principais constatações da auditoria são as seguintes:
Cobertura – há riscos de não atingimento do objetivo previsto na
meta 3 do Projeto de Lei do Plano Nacional de Educação (PLPNE), ainda
não aprovado pelo Congresso Nacional, que estabelece o compromisso de
alcançar, até 2023, a taxa de escolarização líquida (alunos com faixa
etária adequada ao nível de ensino em que estão matriculados) de pelo
menos 85%. Em 2011, essa taxa estava em cerca de 52% para o ensino
médio, segundo dados do Censo Escolar. Existem cerca de 500 municípios
no Brasil em que a infraestrutura escolar destinada ao ensino médio não é
suficiente para atender à meta, correspondendo a um déficit de pelo
menos 38 mil vagas. O maior risco de não cumprimento refere-se a
municípios do Norte e do Nordeste.
Professores – há carência de pelo menos 32 mil professores com
formação específica, no conjunto das doze disciplinas obrigatórias para o
currículo do ensino médio em todo o Brasil. Ainda que essa carência
possa ser suprida com a contratação de novos professores, o que se
observa é que uma melhoria na gestão das redes estaduais poderia ser
mais eficiente e econômica, pois existem 46 mil professores que integram
a rede, mas não possuem formação específica em nenhuma das disciplinas.
Ademais, há cerca de 61 mil professores fora da sala de aula (dos quais
40 mil em atividades administrativas, 16 mil em outros tipos de
afastamento e 5 mil cedidos a outros órgãos não relacionados à área
educacional). Os maiores déficits de professores com formação específica
estão nas disciplinas de física, química e sociologia.
Segundo o relator do processo, ministro Valmir Campelo, “boa
parte desse problema poderia ser resolvido com a capacitação desses 46
mil professores que já atuam na rede, ou pela realocação dos 61 mil
professores que estão fora da sala de aula”.
Outro problema grave relacionado à política de pessoal nas redes
estaduais é o elevado índice de contratação de professores temporários –
30%, em média, no Brasil. Em onze estados, o índice fica na faixa de 40
a 67%.
Gestão – as metas relacionadas ao ensino médio que constam no
Plano Plurianual vigente (PPA 2012-2015) não estão objetivamente
referenciadas ao final da vigência do plano. Evidenciou-se, ainda, que
não há indicador de desempenho do ensino médio que possa individualizar
resultados por escolas ou por municípios, pois o Índice de
Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb) para essa etapa de ensino é
avaliado apenas em âmbito estadual.
Financiamento – as informações declaradas pelos governos
estaduais no Sistema de Informações sobre Orçamentos Públicos em
Educação (Siope) divergem, em alguns casos, significativamente das
informações de outras fontes de dados de execução orçamentária e, assim,
podem não refletir os gastos efetivamente realizados em educação.
A despeito dessa incerteza, pode-se dizer que o investimento
público direto do Brasil por estudante do ensino médio ainda é baixo se
comparado, por exemplo, com a média dos países integrantes da
Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE).
Segundo estudo dessa entidade, enquanto o investimento direto em
educação por aluno do ensino médio no Brasil, em 2010, chegou a 2.148
dólares, nos países integrantes da OCDE, esse valor foi de 9.322
dólares.
A fiscalização também identificou que não há definição de padrões
mínimos de qualidade de ensino, conforme estipula a Lei de Diretrizes e
Bases da Educação Nacional (LDB), fato que dificulta a estimativa de
valor mínimo por aluno que assegure um ensino de qualidade e sirva de
parâmetro orientador da complementação da União ao Fundo de Manutenção e
Desenvolvimento da Educação Básica e de Valorização dos Profissionais
da Educação (Fundeb) de cada estado. As incertezas acerca das
informações contidas no Siope têm reflexo na alocação de recursos que
garantam padrões mínimos de qualidade, pois lançam dúvidas sobre quanto é
realmente gasto por aluno, assim como na apuração do investimento
público em educação.
Para o ministro Augusto Nardes, o trabalho é impactante e
histórico. “Essa auditoria inédita representa um novo caminho não
somente para o tribunal, mas também para o Brasil em termos de
educação”, afirmou. Além disso, o presidente ponderou que o ministro
relator, ao visitar escolas pelo Brasil, observou não somente as falhas,
mas também o aspecto positivo no contexto da educação no país.
Diante do cenário encontrado, o TCU determinou ao Ministério da
Educação que apresente plano de ação que contemple, entre outros
aspectos, a elaboração de modelo avaliativo que possibilite exprimir a
qualidade do ensino médio por escola, e a regulamentação de padrões
mínimos de qualidade de ensino, de forma a permitir a definição de valor
mínimo por aluno que assegure um ensino de qualidade e sirva de
parâmetro orientador da complementação da União ao Fundeb de cada
estado. O tribunal também dará conhecimento ao Ministério da Educação e
às secretarias estaduais de educação sobre as principais fragilidades
encontradas na auditoria, como o déficit de professores nas redes
estaduais de ensino médio e a insuficiência de cobertura da rede escolar
para cumprir meta do Plano Nacional de Educação, que tramita no
Congresso Nacional.
O TCU irá monitorar o cumprimento das determinações e recomendações resultantes da auditoria.
Por: Efrem Ribeiro/meionorte.com/Edição: PHB emNota
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