13/03/2021

Primeiras ocupações do Piauí foram de povos africanos, revela Niède

Crédito das fotos: André Pessoa.

A arqueóloga Niède Guidon, nascida em Jaú, município de São Paulo, completa 88 anos neste dia 12 de março. Boa parte da vida foi dedicada à Serra da Capivara, um verdadeiro paraíso antropológico incrustado no Sul do Piauí, entre os municípios de São Raimundo Nonato e Coronel José Dias. Em entrevista ao Jornal Meio Norte, Niède revela dados relevantes sobre a chega dos primeiros habitantes ao Piauí. Ela afirma, com certeza, que os primeiros ancestrais dos piauienses vieram da África, através de processos migratórios.

Ela conta que nunca pensou em ser aqueóloga. "A arqueologia que me procurou. Diversas circunstâncias da vida me levaram a trabalhar na área de arqueologia, no Museu do Ipiranga, mas eu não era arqueóloga… Então fui estudar para poder realizar meu trabalho”, lembra.

Niède é formada em História Natural pela Universidade de São Paulo (USP), tem especialização em Arqueologia Pré-Histórica, além de doutorado e pós-doutorado. "Minha formação no Brasil foi excelente, formei em 1958. Tanto que quando fui me apresentar em Paris para estudar arqueologia, já que não existia nenhum curso dessa área no Brasil, consegui passar em primeiro lugar. A qualidade da formação francesa também era excelente, então só tive a ganhar”, conta.

Em 1963, quando arqueóloga do Museu Paulista, Niède teve o interesse de desbravar estas terras. “Pessoas da região levaram fotografias de algumas pinturas rupestres daqui. Imediatamente vi a diferença delas com tudo o que era conhecido no mundo em matéria de arte rupestre. Nesse mesmo ano tentei vir conhecer a região, cheguei a Petrolina, para seguir de carro até São Raimundo Nonato e a chuva tinha levado a estrada e não foi possível continuar. Diferentes circunstâncias me levaram a viver na França e durante anos guardei aquela ideia de conhecer a região do sudeste do Piauí. Consegui voltar em 1970, a população local me mostrou alguns locais com pinturas e prometi voltar. Voltei em 1973 com uma pequena equipe, depois em 1975 e finalmente em 1978 vim como uma equipe franco-brasileira numerosa e começamos a escavar, entre outros o Boqueirão da Pedra Furada”, recorda.

A região, inóspita na época, foi um desafio para os pesquisadores que se aventuraram nas primeiras expedições. “A região era muito isolada e pobre. Acessos difíceis, falta de infraestrutura. A poeira estragava as máquinas fotográficas. Os filmes de fotografia precisavam ficar protegidos do calor, caso contrário perderíamos todas as fotos. Mas tudo isso era facilmente superado pela paixão que provocavam as descobertas e porque sempre fui muito bem recebida, acolhida... Até hoje tenho amigos que fiz nas primeiras vindas”, avalia.

Pesquisas de grande valor científico
Após o desbravamento da Serra da Capivara por Niède e sua equipe muito foi estudado naquela rica região. “Conseguimos recolher uma enorme quantidade de dados, toda a equipe tem publicado muito. Nossas pesquisas renderam inúmeras dissertações de mestrado e doutorado que tiveram como tema a região. Conseguimos criar o Museu do Homem Americano e o Museu da Natureza, revertendo assim à toda a sociedade os resultados das pesquisas. Em fim, cabe destacar a presença em São Raimundo Nonato dos cursos de arqueologia e ciências da natureza”, considera Niède Guidon.

O povoamento do continente americano, que também inclui o Piauí, no entanto, continua sendo um grande quebra-cabeças. “Não penso que o primeiro homem, ou mulher, americano era piauiense. Isso não parece possível. De algum lugar veio e por algum outro lugar passou para chegar ao interior do Piauí. A pesquisa em outras regiões é ainda muito reduzida, um dia talvez alguma equipe de especialistas consiga reconstruir a rota ou as rotas de chegada até aqui. Hoje já existem datações de 130.000 anos nos Estados Unidos, 125.000 no Chile, o que demonstra que as datações locais, as primeiras obtidas na América, são corretas”, resume Guidon.

Primeiras ocupações
Ao que tudo indica, os povos que ocuparam o Piauí são da África, bem antes da chegada dos navios portugueses ou mesmo do nascimento de Jesus Cristo. “Publicações recentes mostram que arqueólogos americanos já tem datações bem antigas, inclusive superiores às nossas. Com essas novas descobertas já ninguém nega a antiguidade do povoamento das Américas. A teoria da passagem exclusiva pelo estreito de Bering está definitivamente derrubada. Os primeiros povos chegados ao Piauí eram, sem dúvida, de origem africana”, acrescenta a arqueóloga.


A região permanece como um grande centro de conhecimento. “Ainda há centenas de sítios arqueológicos que não foram escavados e as novas tecnologias cada dia abrem novas portas para uma pesquisa mais profunda e precisa. Tudo isto sem mencionar todas as outras áreas da ciência que encontram inúmeros temas de pesquisa na região. Como todo conhecimento do passado, as manifestações rupestres contribuem na formação de cultura. A evolução vem desse amadurecimento. Talvez porque cada descoberta leva o homem a refletir e a avançar. Atualmente, pelo menos na Serra da Capivara, esse legado nos permite desenvolver a região, extremamente pobre, através do turismo e todas as suas atividades paralelas. Nosso maior problema, como já mencionei, é a falta de regularidade de recursos para a proteção. Imagino que em outras regiões do Brasil o problema é similar. Mas pesquisem. Sempre haverá novas descobertas”, finaliza a pesquisadora.

Fonte: Portal Meio Norte

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