Por: Pádua Marques (*)
No
meu livro, O Libertador de Cuba, ainda não publicado e com o qual se
Deus quiser pretendo ainda ganhar muito dinheiro, os personagens, Bião,
Franzé, Domingos, Lino e Burro Preto, todos eles das bandas da Guarita e
dos Tucuns, depois de fazerem de um tudo pra chegarem até Cuba e tirar a
ilha das mãos de Fidel Castro, acabam presos e levados pra delegacia na
Nova Parnaíba aonde depois de levarem um cagaço daqueles do delegado de
plantão saem já de madrugada tirando onda da cara dos motoristas de
taxi que ficam ali no balão construído pelo Zé Hamilton. Molecagem e
tanto.
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| Pádua Marques |
E
não é que esses quatro sujeitos, o vagabundo Domingos, Bião, o mecânico
de bicicletas, o desempregado e idealista Lino, Franzé, o descrente de
tudo e Burro Preto, o estivador negro e brigão das bandas da Munguba,
vinham sendo arregimentados com aquela ideia de que a ilha infestada de
tubarões no Caribe precisava e urgente ser libertada das mãos criminosas
e ensanguentadas dos irmãos Castro. Aquela ferida comunista não podia
ficar incomodando a democracia no meio do continente americano e
provocando o sofrimento de milhares de irmãos latinos, doidos pra
entrarem nos Estados Unidos.
Não
vou contar o resto da história porque se fizesse agora ninguém haveria
de comprar o livro que hei de publicar se um dia arranjar dinheiro. E
com o apurado pretendo conhecer a Disneylândia. Vou só pra apertar a mão
do Mickey Mouse e de seu irmão Barack Obama e puxar o rabo da Pantera
Cor de Rosa. Quero ver se aquele bicho esquisito é macho ou fêmea. Nada
de mandar foto, como fazem milhares de brasileiros em férias na Flórida
que saem do Brasil e dos seus que fazer devendo Deus e o mundo se
pabulando de que estão fazendo a viagem dos sonhos pra acabar tirando
fotos encostados em coletores de lixo e ainda tem a coragem de postarem
nas redes sociais.
Mas
fiz de propósito um arrodeio desses pra chegar ao assunto das eleições
da semana passada. Acabou a guerra. Agora é a volta pra casa dos
pracinhas de 2014, daqueles que saíram de suas casas e de seus domínios à
procura de mudarem alguma coisa no mundo em que vivemos. Uns
conseguiram pelo convencimento e propostas atingir seus objetivos e a
vitória a que desejavam, o voto, a confiança do eleitor. Outros não
foram assim tão felizes nos seus propósitos. Voltam pra casa de cabeça
baixa e decepcionados com a guerra mais fria e apaixonante, que é pra
alguns, a campanha política. Outros voltam mais maduros, experientes,
certos de que cumpriram o dever da consciência.
Mas
como em todas as guerras, a política é a mais fascinantes das passagens
humanas porque é a luta sem violência pelo domínio das gentes pela
ideologia. E muitos soldados nesta guerra de 2014 voltaram ou ainda
estão voltando dessa guerra estropiados, sujos, maltrapilhos,
desconfiados com tudo e com todos. Muitos estão chegando no portão de
suas casas olhando pra um lado e pra outro. Muitos estão chegando
endividados. Outros vem chegando só as tiras, cheios de vícios morais
como a inveja, a bajulação, a falta de caráter, a dissimulação, orgulho e
tantos outros.
Mas
há aqueles que embora sonolentos pelas noites mal dormidas e ainda
tendo de vez em quando divagações pelo horror e o sofrimento no campo de
batalha da campanha agora podem olhar de frente pra família e pros
amigos que aqui de fora ficaram com a confiança de que fizeram o melhor
que puderam. Levaram pra campanha propostas, rasgos de sabedoria,
humildade, paciência, sinceridade. Outros não ousaram e nem usaram a
corrupção pelo dinheiro, por objetos ou o favorecimento de vantagens
neste ou naquele expediente se prevalecendo de condição profissional ou
de fortuna.
Vai
levar bastante tempo pra alguns assimilarem a derrota. Mas faz parte do
teatro da guerra na política. Bem melhor do que a guerra pela força
onde tem feridos e mortos, destruição de cidades e de nações,
desagregação das famílias e dos costumes, culturas e das ciências. No
fim tudo deve acabar mesmo é com muita confraternização regada a cerveja
e cachaça, caldinho de carne, manjuba frita, churrasquinho com baião de
dois no azeite de coco, tira gosto de limão, cajá umbu ou caju azedo.
Dentro de mais alguns dias, coisa de, no outro final de semana, os mais
renomados cientistas políticos da Parnaíba estarão debruçados discutindo
e analisando sobre este momento de vitórias pra uns e derrotas pra
outros.
Estarão
no Bar Carnaúba, na praça da Graça, Zé do Santos, no Mercado de Fátima,
Lanchonete do Farias, na Duque de Caxias, Vera Coutinho, no Pindorama,
Bar do Barriga, da João Cândido, no Nova Parnaíba. Se a gente ficar
enumerando pontos de discussão sobre este momento que acaba de passar
não acaba nunca. Certo mesmo é ter certeza de que a guerra de campanha
política acabou e os pracinhas, os subalternos, estão de volta com o
matulão nas costas. Uns com o sorriso de orelha a orelha enquanto outros
com o rabinho entre as pernas e olhando pros cantos. E os políticos
profissionais, os maiores protagonistas e interessados desta guerra de
2014 nem hão de se lembrar do ocorrido daqui pra mais uns dias.
(*)Pádua Marques é escritor e jornalista

