O ator José Wilker, 67 anos, o narrador esportivo Luciano do Valle, 66
anos, o cantor Jair Rodrigues, 75 anos. Além de famosos, os três têm um
fator em comum: morreram de infarto e todos nos últimos 33 dias. Pode
até parecer coincidência eles serem homens e estarem acima dos 65 anos,
mas não é. Idade, sexo e estilo de vida são fatores de risco importantes
para o surgimento do infarto do miocárdio, de acordo com especialistas
ouvidos pelo R7. Lembrando que, além deles, o ator Renato Aragão, 79 anos, enfartou e chegou a passar dias no hospital em março deste ano.
Os inúmeros compromissos dos famosos podem acarretar uma rotina menos
saudável. A correria do dia a dia, a falta de tempo e os horários
desregrados impedem a prática regular de exercício físico e adoção de
uma dieta balanceada. Além de tudo isso, o cardiologista César Jardim,
do HCor (Hospital do Coração), também cita o fator estresse.
— O estresse é um fator de risco e lógico que tem sua parcela de
contribuição para o infarto, mas ele sozinho não é o único culpado. Vale
lembrar que, quanto mais fatores de risco, mais chance de apresentar a
doença.
De acordo com o cardiologista Carlos Magalhães, diretor de promoção da
Saúde Cardiovascular da SBC (Sociedade Brasileira de Cardiologia),
"quanto mais velho, maior é o risco de doença cardiovascular".
— Por isso, pessoas acima dos 60 anos devem redobrar os cuidados com a
saúde do coração. Além disso, os homens têm mais chances de enfartar que
as mulheres.
O médico explica que o risco de infarto iguala em ambos os sexos quando a
mulher chega à menopausa, ou seja, “ela para de produzir os hormônios
femininos que atuam como protetores do coração”.
— Mulheres acima dos 60 anos morrem de quatro a seis vezes mais do
coração do que de câncer de mama e de colo de útero. No entanto, elas se
preocupam mais com o câncer.
No caso de Jair Rodrigues, que foi encontrado morto na manhã desta quinta-feira (8) na sauna de sua casa, o calor do ambiente pode ter potencializado o surgimento da doença, explica o cardiologista da SBC.
— Pela idade, ele possivelmente já devia ter algum grau de obstrução da
artéria e não sabia. Assim, o calor da sauna desencadeou uma
vasodilatação periférica, queda da pressão arterial e aumento dos
batimentos cardíacos, levando à morte súbita [infarto].
De acordo com dados da SBC, no Brasil morrem cerca de 340 mil pessoas
por doenças cardiovasculares todos os anos. Essa é a principal causa de
morte por doenças, superando inclusive os cânceres.
Além da idade e do sexo, Jardim, ressalta que a hereditariedade é outro fator de risco importante.
— Pessoas que têm parentes de primeiro grau que enfartaram cedo, ou
seja, homens abaixo dos 55 anos e mulheres abaixo dos 65, devem
intensificar o checkup, pois têm mais chances de enfartar.
Jardim cita outros fatores que contribuem para o aparecimento da doença.
— Excesso de peso, sedentarismo, alimentação rica em gordura saturada,
cigarro, estresse e ingestão de bebida alcólica. Estes fatores podem ser
modificados e contribuem para a prevenção.
Magalhães acrescenta que pacientes hipertensos, diabéticos e com
colesterol e triglicérides alterados também correm mais risco de doença
cardiovascular, “mas se mantiverem o tratamento em dia, conseguem
minimizar o quadro”.
Dor no peito é o primeiro alerta
Segundo o cardiologista da SBC, o principal sintoma do infarto é a dor
no meio do peito que irradia para o pescoço, mandíbula, ombros e braços,
especialmente o lado esquerdo.
— Estes são os sintomas clássicos que sinalizam a evolução do infarto,
mas há dores atípicas, como no caso do Luciano do Valle que apresentou
dor nas costas. Como ele já tinha sobrepeso e histórico de AVC [acidente
vascular cerebral], o diagnóstico de infarto poderia ter sido feito se
ele tivesse procurado o serviço médico do aeroporto antes de embarcar.
O cardiologista Miguel Antônio Moretti, da SBC, reforça que “quanto mais
rápido a coronária for desobstruída, menores serão as consequências do
infarto”.
— A desobstrução da artéria pode ser feita de duas formas, com medicação ou por meio de um procedimento chamado angioplastia.
Para Jardim, o ideal é que o paciente seja atendido na primeira hora,
pois na literatura médica “tempo é músculo”. Assim, o cardiologista
Diego Gaia, professor da Unifesp (Universidade Federal de São Paulo),
aconselha que a pessoa corra para o hospital logo que apresentar os
primeiros sintomas.
― Se não houver ninguém para levá-la ao pronto-socorro é necessário chamar uma ambulância imediatamente.
O humorista Renato Aragão, que sofreu um infarto durante a festa de
aniversário de 15 anos de sua filha Lívian, passou pelo procedimento de
desobstrução da artéria e implantou um stent para mantê-la aberta.
Segundo Moretti, o procedimento exige alguns dias de internação.
— Todo indivíduo que enfarta precisa ficar internado por mais ou menos
cinco dias, sendo as primeiras 48 horas na UTI [Unidade de Terapia
Intensiva] ou em uma unidade de coronária, pois há mais risco de o
paciente ter arritmia maligna ou complicação grave. Depois deste
período, ele fica no quarto para o processo inflamatório no músculo
cardíaco reduzir antes de receber alta médica.
As consequências do infarto dependem do grau de comprometimento do
músculo, que vai apresentar dificuldade de bombeamento, avisa Moretti.
— Se a lesão for grande, o coração pode entrar num quadro de
insuficiência cardíaca. Por isso, é importante que aos primeiros
sintomas o paciente procure o serviço de emergência para minimizar estas
complicações.