01/02/2018

Mais de 600 alunos com deficiência devem ingressar na UFPI em 2018


A paralisia cerebral rouba de Márcia o controle dos movimentos das mãos. A falta de coordenação motora torna muito difícil escrever e lidar com desenhos e costuras, que fazem parte da rotina no Curso de Moda, Design e Estilismo na UFPI, do qual Márcia é aluna do 2º período. "Quando eu passei, nem acreditei. Fiquei muito feliz!", conta a jovem, que já é formada em técnico em Administração, por gosto exclusivo da mãe, já que Moda sempre foi seu sonho. A estudante relata a necessidade de improviso para realizar alguns trabalhos que exigem coordenação motora. " Se não desenho, consigo moldar os tecidos no papel. Nesse trabalho (foto), tirei nota máxima!", orgulha-se. Com os olhos marejados, fala com carinho dos colegas de turma. Diz que são muito companheiros e que fazem de tudo para ela se sentir incluída: "Sinto que estou no lugar certo e com as pessoas certas!".

Leandro e os colegas, que compõem a 90ª turma de Medicina na UFPI - Foto: Arquivo Pessoal

Leandro é outro exemplo de perseverança. Estudante do 2º semestre de Medicina da UFPI em Teresina, o jovem assiste às aulas teóricas numa maca e às aulas práticas na cadeira de rodas. Leandro perdeu os movimentos das pernas após um acidente com arma de fogo; e as escaras, provocadas por ficar muito tempo na mesma posição, o obrigam a variar entre estar sentado e deitado. "O que me motivou a querer ser médico é essa vontade de ajudar sempre os outros. Pretendo ser um profissional generoso. Procurar não só tratar a doença em si, mas procurar entender como anda o paciente no meio social em que está inserido", conta Leandro Sousa, de 21 anos. 





Ao longo de 2017, a Universidade recebeu, em todos os campi, 246 estudantes com deficiência. Foram 160 alunos matriculados só no Campus de Teresina. É que passou a valer, desde o segundo semestre do ano passado, a Lei 13.409/2016, que mudou a legislação sobre cotas nas universidades e acrescentou pessoas com deficiência no grupo de estudantes com direito à disputa de vagas reservadas, que já contemplava alunos de escola pública; de baixa renda; e negros, pardos ou indígenas. Os casos mais comuns de deficiência entre alunos matriculados na UFPI são cegueira ou baixa visão, seguidos de deficiência auditiva e, em terceiro, deficiência física.

Para 2018, estão sendo oferecidas, no Ensino Superior, 506 vagas para estudantes com deficiência para ingresso como cotistas em 78 cursos de graduação da Universidade via SISU. No Ensino Técnico, são disponilizadas um total de 130 vagas nos colégios de Bom Jesus, Floriano e Teresina para os cursos técnicos em agropecuária, enfermagem e informática,com ingresso via processo sesletivo. A quantidade de vagas atende proporcionalidade desse segmento na população piauiense, apontada pelo último censo do IBGE, como 27,57% para pessoas com algum grau de deficiência. A meta é levar inclusão a alunos com diferentes quadros de deficiência, considerando as singularidades daqueles que compõem o público-alvo da educação especial: pessoas com altas habilidades/superdotação, pessoas com transtorno do espectro autista; e pessoas com deficiências física, auditiva e/ou visual.

Professor Sinimbu Neto, Superintendente de Ensino Básico, Técnico e Tecnológico 
da UFPI - Foto: Arquivo Coordcom/UFPI

" O ingresso de alunos com deficiência é um ganho para todos. Além do próprio estudante, que passa a exercitar esse direito, ganham os professores, que repensam suas práticas em sala de aula e ganham os colegas, que desfrutam da convivência com o aluno deficiente, com oportunidade de desenvolver empatia", avalia o Professor Sinimbu Neto, Superintendente de Ensino Básico, Técnico e Tecnológico da UFPI.

Desde 2005, a Universidade oferece vagas a esse público por meio de editais do Programa de Acessibilidade na Educação Superior (INCLUIR), do MEC. De lá pra cá, a Instituição participou de vários projetos para integrar os estudantes e formou alunos com deficiência em, pelo menos, 16 cursos entre 2009 e 2017. Para o Pró-Reitor de Ensino de Graduação, Nelson Juliano, à medida que a UFPI se transforma para melhor acolher a esse público, mais se aproxima do que sociedade espera da Instituição.

Professor Nelson Juliano, Pró-Reitor de Ensino de Graduação - Foto: Danielle Maciel/UFPI

“Agora, com as cotas, temos um contingente relevante de pessoas com deficiência, que, necessariamente, estarão ocupando essas vagas reservadas. Isso tem exigido um olhar diferenciado por parte da UFPI desde o atendimento especial já no acolhimento a esse aluno, no ato da matrícula institucional, que será realizada com prioridade e em ambiente acessível; passando por mudanças mais amplas nos espaços da universidade, que incluem, entre outras providências, instalação de mais rampas e de placas em braille, para facilitar aos cegos a localização nos campi. E a convivência com essa pluralidade resulta em aprendizado geral para todos”, avalia.

Para dar condições de permanência e conclusão do curso a esses alunos na UFPI, foi criado em 2014 o Núcleo de Acessibilidade (NAU), ligado à Pró-Reitoria de Assuntos Estudantis e Comunitários (PRAEC). A equipe é formada por assistente social, psicóloga e pedagoga, além de bolsistas das áreas de pedagogia, jornalismo e serviço social. A PRAEC está envolvida com o acolhimento do aluno com deficiência a partir do momento da seleção pela Pró-Reitoria de Ensino de Graduação (PREG). No ato da inscrição do SISU, o estudante cadastra o tipo de deficiência e anexa a documentação necessária para comprovação. O NAU analisa todos os documentos para saber se o candidato tem direito a concorrer pelas cotas. Por lei, as vagas reservadas para pessoas com deficiência englobam quadros de deficiência física, sensorial (visual e auditiva), intelectual e de transtorno do espectro do autismo (TEA). 

Josie Haydee, Coordenadora de Assistência Comunitária da PRAEC - Foto: Airton Lima/UFPI

“ Só pra se ter uma ideia, chegam muitas inscrições de alunos tentando disputar as cotas por questão de dislexia, porque alguns pessoas tinham entendido que o transtorno entrava como deficiência. E dislexia não dá direito às cotas”, explica Josie Haydee, Coordenadora de Assistência Comunitária da PRAEC. Também é decisivo para ter direito a ocupar as cotas o grau de comprometimento relacionado à deficiência. “Às vezes, a pessoa tem uma deficiência física muito leve e que não compromete em nada a vida estudantil. Nesse caso, também não pode disputar vaga pelas cotas.”, complementa. Josie aproveitou para explicar ainda que estudantes com dislexia podem solicitar à PRAEC tempo adicional para responder as provas, esse sim é o benefício a que têm direito.

A partir do ingresso desse aluno, o NAU estabelece contato individualizado para conhecer as demandas necessárias para integrar o estudante aos ambientes da vida universitária e oferecer acompanhamento pedagógico, social e psicológico. “ Um papel muito importante do NAU é garantir acessibilidade. Por exemplo, um aluno com deficiência física e que não pode ficar sentado numa cadeira normal, na entrevista inicial com o NAU, já informa essa demanda e o Núcleo fará a interlocução com outros setores da UFPI para viabilizar o que o estudante precisa, uma carteira especial ou um colega de classe que o auxilie e o acompanhe, por exemplo. Há, inclusive, bolsas que o colega auxiliar pode receber da PRAEC a partir da indicação do próprio estudante com deficiência”, detalha Josie Haydee.

Uma das lupas que compõem kit entregue a estudantes com baixa visão na UFPI - Foto: Airton Lima/UFPI

Outro trabalho desempenhado pelo NAU é a adaptação do material didático para atender os alunos. Para estudantes com baixa visão, por exemplo, a PRAEC disponibiliza um kit com 7 lupas, para auxiliar no processo de leitura; e também a impressão do material em alto relevo para que estudante tenha uma melhor percepção do conteúdo. Há também a impressão em braille para alunos com deficiência visual completa. O NAU ainda estabelece contato e prepara os coordenadores dos cursos e docentes para receber o aluno com deficiência.

Professor Kelson Aires, Coordenador do Curso de Ciência da Computação - Foto: Arquivo Pessoal

Kelson Aires, coordenador do Curso de Ciência da Computação, já teve oportunidade de dar aulas a um estudante cego, que ingressou no curso no primeiro semestre de 2017. A metodologia de ensino precisou se ajustar às necessidades do aluno. Os slides projetados em sala de aula ganharam comentários para facilitar o entendimento do estudante sem prejudicar a aprendizagem dos demais alunos. " O aluno é inteligente e dedicado, acima da média, o que facilitou bastante o processo. Pra mim, foi uma experiência enriquecedora. Difícil e desafiadora também! Mas hoje posso dizer que, na minha área, sei como lidar, em sala de aula, com um deficiente visual. ", avalia.

Para buscar atender às demandas dos alunos, o diálogo entre a PRAEC e professores é constante. “O NAU também se preocupa com a questão da estrutura física. Se o aluno for assistir aula no segundo andar e não tiver acessibilidade já é conversado com o professor para mudar a sala, porque o ambiente tem que ter condições de receber o aluno. Já conseguimos uma mesa especial que o aluno em cadeira de rodas apenas se encaixa e assiste às aulas. Agora estamos tentando comprar mais dessas mesas. A PRAEC juntamente com a Prefeitura Universitária (PREUNI) trabalham juntas para prover a infraestrutura e materiais adequados para o acolhimento desses alunos”, informa Josie Haydee, Coordenadora de Assistência Comunitária da PRAEC. 

Biblioteca Jornalista Carlos Castello Branco, da UFPI - Imagem: Manoel Eduardo/UFPI 

De onde vêm os recursos – Os recursos para viabilizar a permanência e assistência a estudantes com deficiência vêm do PNAES – Programa Nacional de Assistência Estudantil, e do Programa Incluir, ambos do MEC. Os recursos são destinados a melhorias de infraestrutura, compra de equipamentos e pagamento de bolsas. No ano passado, 27 estudantes da UFPI receberam bolsas disponibilizadas pela PRAEC, no valor mensal de R$ 400, voltadas a alunos que prestam auxílio acadêmico a algum colega com necessidade educacional especial (Bolsa de Inclusão Social - BINCS); e àqueles que prestam auxílio a um estudante surdo ( BINCS-ES). Para concorrer à BINCS-ES o candidato deve ter habilidades em LIBRAS. O número de bolsas concedido pode ser maior. Há muitos estudantes deficientes com autonomia e que não solicitam o acompanhamento do auxiliar. Mas ainda existe falta de informação sobre a existência dos benefícios, e, infelizmente, resistência de alguns estudantes em atuarem como auxiliar.

Rafaella Santiago, coordenadora do Núcleo de Acessibilidade - Foto: Airton Lima/UFPI

“Muitos alunos deficientes têm dificuldade em identificar alguém que tenha afinidade e que queira ser auxiliar acadêmico. Infelizmente, ainda existe a questão do preconceito, de não entender um pouco sobre a deficiência e, por isso, muitas vezes, essas pessoas recuam, achando que vai atrapalhar nos próprios estudos. Às vezes, o estudante termina o ano e não consegue indicar um auxiliar. Por isso, nós buscamos sempre explicar o papel e a importância do auxiliar”, conta a assistente social Rafaella Santiago, coordenadora do NAU.

O estudante do 4º período de Letras Libras, Ediney da Cunha, de 20 anos, há mais de um ano atua na orientação pedagógica de um grupo de oito alunos surdos do 2º período do curso. Nos encontros, realizados no contraturno das aulas, em média 3 vezes por semana, Ediney tira dúvidas sobre textos, faz leituras com os colegas que têm dificuldades com o português e ajuda a organizar os trabalhos.

Ediney da Cunha, estudante de Libras, auxilia colegas surdos no curso - Foto: Arquivo Pessoal

“ Com eles, aprendi como é a perspectiva do surdo na Universidade. Se eu leio alguns textos em Português e tenho dificuldade, imagina pro surdo! É ainda mais difícil. Eu comecei a ter essa empatia e perceber como é. Aprendo bastante com eles!”, explica Ediney, que possui nível satisfatório de fluência em libras, condição exigida para receber bolsa BINCS-ES e ajudar na orientação de surdos. Os encontros também rendem a Ediney mais segurança na profissão que vai trilhar em alguns anos. “ Com eles, aprendi como ser mais didático com respeito à minha sinalização, ganhei mais fluência e estou me desenvolvendo bastante à medida que me adapto aos diferentes graus de dificuldade que eles têm. Isso vai impactar também minha formação”, completa.

Rendimento dos alunos atendidos pelo NAU – O serviço pedagógico do NAU acompanha e orienta os alunos com deficiência para que possam concluir os estudos em tempo hábil, diminuir retenções e eliminar as possibilidades de evasão. Os atendimentos incluem desde orientações para organizar a rotina de estudo, diagnóstico das necessidades educacionais e encaminhamento das demandas aos demais serviços internos ou externos à UFPI.

Em Teresina, os 21 estudantes diretamente atendidos pelo NAU registraram, nos dois semestres de 2017, médias do IRA ( Índice de Rendimento Acadêmico) superiores a 7,8. Mais de 81% dos estudantes passaram de semestre sem reprovação de disciplinas. O acompanhamento realizado demonstra a evolução acadêmica nas disciplinas cursadas pelos estudantes, mantendo-se um pouco acima da média exigida. Mas a orientação pedagógica vai além do registrado nos números.

Dilma Andrade, pedagoga do NAU - Foto: Airton Lima/UFPI

“ O NAU faz um acompanhamento de alunos, que é pontual; e outro, que é esporádico. Aquele aluno que precisa de orientação por estar com dificuldade momentânea recebe atendimento; e esse acolhimento não entra nas estatística de avaliação pedagógica. Há também o serviço prestado a surdos, que têm dificuldades em preparar um slide, fazer resumo e em apresentar trabalhos. Para esse grupo, fizemos também um serviço de orientação pedágico e psicológico para controle de ansiedade. E a gente percebe que isso, de certa forma, ajuda no rendimento acadêmico”, esclarece Dilma Andrade, pedagoga do NAU.

Brunna Stella Melo, psicóloga do NAU - Foto: Airton Lima/UFPI

Orientação psicológica - O atendimento psicológico, voltado à área educacional, é outro serviço indispensável a alunos com deficiência, que buscam o NAU. São trabalhadas demandas pessoais dos alunos, que dizem respeito à área acadêmica. "A gente trabalha concentração, como prestar mais atenção nas aulas, estratégias de memorização e de leitura de texto e até de adaptação. Infelizmente, alguns alunos ainda se sentem discriminados na sala de aula; e algumas pessoas ainda acham que tratar o deficiente é tratá-lo como igual. E, na verdade, o tratamento precisa ser diferente, porque ele é diferente. Se eu tratar o diferente como igual, eu estou excluindo ele", finaliza Brunna Stella Melo, psicóloga do NAU.

Mais acessibilidade na Biblioteca Central – Ainda neste semestre, será inaugurado o Laboratório de Acessibilidade e Inclusão (LACI) da UFPI, que funcionará na Biblioteca Jornalista Carlos Castello Branco, e terá recursos especiais para atender alunos com deficiência. Serão disponibilizados computadores e recursos de tecnologias assistivas. Entre os recursos oferecidos, estarão o teclado colmeia, que, incorporado ao teclado comum dos computadores, dá mais acessibilidade a pessoas com dificuldade motora; a linha braille, equipamento que transformam textos do computador em braille; computador adaptado com ledor, software que lê para o cego o que está na tela do PC; a máquina de escrever em braile, scanner, entre outros.

Danielle Maciel - jornalista Coordcom/UFPI

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