27/12/2017

Crimes contra a mulher marcam o ano de 2017

(Crédito: Raissa Morais)

Ao longo dos anos de 2016 e 2017, o número de feminicídios no Piauí trouxe à discussão o assunto de forma alarmante e assustadora. A preocupação no aumento do índice de feminicídios trouxe um alerta não somente à Segurança Pública do Estado, mas à sociedade em geral. E é a falta de respeito um dos maiores fatores, dentre os diversos, que tem levado ao princípio de um caos dentro da sociedade.
Em 2016, o salto estatístico no número de Crimes Letais Intencionais contra o sexo feminino em relação ao ano anterior, foi o que fez o Estado debater o tema para buscar soluções, baseado em dados fornecidos pelo Núcleo de Estatística da Secretaria de Segurança Pública. Em 2015, o Estado do Piauí registrou 67 casos, dos quais 25 foram em Teresina. Para coibir esse tipo de crime foi criada, em 2016, a Delegacia Especializada de Combate ao Feminicídio, tendo à frente a Delegada Anamelka Cadena para enfrentar o problema instalado.

No ano de criação da Delegacia Especializada, o número caiu para 54 casos no estado e 13 na capital. Já no ano de 2017, que ainda não tem a estatística fechada, os dados apontam o aumento tanto dos crimes letais intencionais contra a mulher como também do feminicídio em Teresina.

Durante o ano de 2017 não foi raro ser noticiado pelas mídias o assassinato de mulheres, o chamado crime de gênero. Dentro de todas as histórias de crimes de feminicídio ocorridos é comum o relato da falta de respeito existente, o que posteriormente leva a serem consumado os atos de crueldade e assassinato às vítimas.

Foi o que ocorreu com os dois últimos casos de grande repercussão ocorridos em Teresina, sendo eles o caso da estudante de arquitetura Iarla Lima, morta pelo tenente do 2º BEC ( Batalhão de Engenharia de Construção) e o caso Camila Abreu, também morta pelo namorado depois de comprovadas agressões sofridas pela vítima.


O desrespeito às diferenças
Para Arnaldo Eugênio, doutor em Antropologia, “a intolerância ou o ódio dos homens para com as mulheres não é natural, ou seja, foi socioculturalmente construído. Portanto, o feminicídio não pode nem deve ser visto como algo normal, mas como um ato de desrespeito, de crueldade e de intolerância às mulheres”. Segundo ele, o respeito perpassa pela aceitação do outro da forma como ele é, as diferenças existentes entre as pessoas.

“A partir do momento em que não consideramos o próximo como um ser portador dos seus direitos, vontades, sensibilidades, amor próprio e valores, isso faz com que passemos a não respeitá-lo, o que tende à pessoa querer anular, humilhar e até eliminar uma outra pelo fato de não tolerar”,explica o antropólogo, e completa dizendo que o respeito é fundamental dentro de uma sociedade para que haja um mínimo de controle, levando em conta que existe essa diferença entre as pessoas.

(Crédito: Raissa Morais)

O perigo da falta de respeito surge a partir do momento que ele se torna um sentimento de ódio ao outro, o que pode levar a atos de violência, como o que acontece com os crimes de gênero, no qual o homem deixa de lado as diferenças existentes entre a mulher e passa em sua maioria a querer submeter às suas vontades, levando ao homicídio.

De acordo com Arnaldo, devemos fazer primeiro com que as pessoas reconheçam o outro com seus valores e suas diferenças e passe a aceitá-lo como ele é, e não como gostaria que ele fosse. “As pessoas nunca serão como gostaríamos que elas fossem só porque queremos, cada um possui sua identidade e precisamos respeitar para que sejamos respeitados também e assim possamos manter um relacionamento democrático dentro da nossa sociedade”, finaliza.

Educação e o respeito
A educação é o “foco” primordial para que desencadeie o respeito como um dos valores a seguir ao longo da vida. É levando em consideração o processo formativo que acontece dentro da instituição chamada “Escola” que se inicia a convivência com o coletivo, em que os primeiros contatos da criança acontece com a diversidade existente dentro da sociedade.

As diferenças existentes dentro da sociedade atual podem ser de gênero, raça, etnia, nacionalidade, cultura, língua, religião, orientação sexual, física e psíquica. Nas suas especificidades, em hipótese alguma, pode significar que entre as pessoas haja melhores ou piores pelo que escolhe ou os valores pelo qual adquiriu, já que a diferença é o normal a ser encontrado entre todas as sociedades e entre as pessoas.

Arnaldo Eugênio afirma que feminicídio é ato de intolerância a mulheres (Crédito: Raissa Morais)

“Para isso é que a Escola tem um papel fundamental, baseado no conceito que a LDB ( Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional) traz sobre a educação, que é um processo formativo estratégico, que vai auxiliar na mudança do comportamento da pessoa. É nesse modelo de comportamento que se insere o respeito ao outro, às diferenças e à diversidade”, explica o Antropólogo Arnaldo Eugênio.

Segundo ainda Arnaldo, a educação voltada ao respeito e à cidadania é fundamental para que possa existir dentro da sociedade esse tipo de comportamento. Assim a escola é primordial para fomentar o respeito ao próximo, sendo ele trabalhado como tema transversal nas salas de aula. O antropólogo ressalta também que a educação por si só não muda comportamentos, pois às vezes até os piora, isso em escolas que seguem algum tipo de ideologia.

Um dos grandes meios que tem levado crianças à prática do desrespeito é principalmente aquelas que tem uma educação familiar racista, machista, sexista, homofóbica e preconceituosa, aprendida dentro do ceio familiar.

O outro lado da Escola
Para o sociólogo Marcondes Brito, o desrespeito tem iniciado dentro da própria Escola, pois ela considera a sua clientela que possui uma grande diversidade como iguais. “Numa democracia a diferença é o princípio essencial do respeito e igualar todos em condições sociais, econômicas e culturais é uma forma intensa de desrespeito. Isso acontece no momento em que se cria um ENEM onde todos devem disputar vagas de forma igualitária”, afirma.

Marcondes pontua que é dentro da escola que se impõe o que poderia ser de escolha de cada pessoa, igualando a todos e tirando o direito de muitos. Ele exemplifica falando das aulas de Ensino religioso, onde as concepções católicas são ensinadas e que desconsideram a diversidade de outras religiões como a Umbanda, Igrejas Protestantes, Candomblé, assim como as outras.

“Existem muitos pontos que mostram que a falta de respeito se inicia dentro da instituição escola, não podemos tratar o diferente como igual, e isso é o que tem acontecido dentro dela.” finaliza.

Fonte: Portal Meio Norte

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