16/10/2017

IML transportou corpo de menina morta em incêndio usando um carrinho de mão


Em meio ao cenário de devastação provocado pelo incêndio que consumiu mais de 200 barracos no assentamento Oito de Março, na zona Rural de Teresina, uma cena particularmente triste causou também revolta aos moradores. E a esta jornalista.

Quando chegamos ao local, avistamos a perícia deixando o assentamento, fazendo ainda algumas últimas imagens. Questionamos em que local havia sido encontrado o corpo da pequena Eloá de Sousa Vitória, de 2 anos, e os peritos apontaram para os fundos do terreno, onde havia um grupo de pessoas.

Mais próximos, no local ainda encoberto pela forte fumaça e cercados pelo intenso calor que emanava de troncos e pedaços de madeira em brasa, algumas mulheres choravam pela morte da pequena.


Ao olhar, não avistamos o corpo da menina, até que uma moradora apontou para restos mortais, ali entre os pés da cama de ferro e o fogão. Irreconhecível. Completamente carbonizado.

Enquanto conversávamos com os assentados, em busca de informações sobre a família da menina e as possíveis causas do incêndio, chega a equipe do IML para remoção do corpo de Eloá. Tamanho foi o susto ao perceber que os restos mortais da menina seria (e foi) transportado em um carro de mão.

O profissional do IML usava apenas luvas de borracha. Conseguiu um pano vermelho que usou para cobrir o corpo e tomá-lo nas mãos. Ele tenta aproximar o carrinho, mas um morador alerta que o calor pode causar o estouro do pneu. O perito recua, e em seguida ergue os restos mortais de Eloá, para espanto dos que observavam, quando aos nossos olhos ficaram expostas as formas do pequeno corpo.

O perito é acompanhado pelos moradores como em cortejo à pequena Eloá, cujo corpo vai ali, em um carro de mão. Uma tragédia dentro da tragédia.


Foto: Adilson Apiaim

Nestas horas, rigor pede imparcialidade de nós profissionais. Mas diante de uma vida interrompida e tão precocemente, não há regra que prevaleça. Tudo transborda.

Enquanto o carro tumba do IML deixava o assentamento, muitas mulheres emocionadas se despediam de Eloá.

“Vai com Deus pequena”.
E sobre aquele carro de mão sujo, velho, em frangalhos, não passa do reflexo de todo o aparelho de segurança pública do Estado, que não trata com respeito sequer os mortos.


Fonte: 180 Graus/Por Apoliana Oliveira

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